Este é o prólogo de minha dissertação de mestrado que fica pronta em 2 meses. Quis publicá-lo pra ver se vou me acostumando com ele.
Nasci em 1984 e fui criada na cidade de São Paulo, a maior cidade tropical úmida do planeta! Cresci ouvindo o relato heroico, mas traumático da minha mãe boiando com sua Belina na Zona Leste quando começava a carreira de professora. Famílias contando na televisão que perderam tudo, do nada que tinham. Vizinhos do Cambuci instalando comportas nos portões e pintando seus muros a cada ano para superar a lembrança de mais uma cheia.
Aprendi a andar de bicicleta nos jardins do Ipiranga onde estão as margens plácidas do hino: cada dia mais fétidas. Fechávamos os vidros para o medo do assalto e para cheiro do rio Pinheiros, ambos produto do mesmo abandono. Às vezes dava vontade de acampar com aquelas crianças numa casinha de madeira em baixo da ponte e não entendia por que eu não devia olhar nos olhos dos mendigos que moravam na praça em frente de casa. Olhava pela janela do carro e perguntava-me por que aquelas máquinas enormes dentro do Tietê; não seria melhor parar de jogar cocô ali?
Ia passar férias em Guarapari, latitude 20°S no Espírito Santo, e a cada ano que passava a cidade estava maior. Eu não podia mais ir tomar sorvete sozinha, nem passear na feirinha. Um dia toda aquela gente ficou proibida de entrar no mar por causa da bandeira vermelha e fazia muito calor. Eu perguntava pra minha mãe: “Mas quem foi que fez cocô na água?”. Não fomos mais pra lá. Agora descíamos a serra do mar paulista quando passávamos por Cubatão, onde meu pai sabia de cor cada receita para fazer soda cáustica, cloreto de alumínio, solvente clorado, etc e etc. Ele, entusiasmado, dizia que tudo que temos, incluindo minhas bonecas, dependia daquelas fábricas. Eu só achava que elas não combinavam com aquela floresta encantada entrecortada por túneis e cachoeiras e nem com o mico leão dourado que vinha no chocolate surpresa. E a ararinha azul então que, segundo a figurinha, só havia mais um casal no mundo? Torcia pra elas não se perderem uma da outra como aconteceu com minha mãe e eu no supermercado outro dia.
Já em Bertioga a gente via índios guarani e eu ficava numa emoção só! Era um sinal que estávamos num lugar sem cidade. Só achava estranho eles estarem de roupa na beira da estrada vendendo e não do rio pescando. Chegando em Camburi era uma festa só! Aqui podia tudo! Pena que chovia! Chovia tanto em São Sebastrovão, bem nas férias de verão. Eu achava que a gente tinha que ter férias em outro mês. Um dia choveu tanto que encheu a rua de casa e até que era divertido caminhar com agua na canela. No outro ano a água entrou em casa e a gente subiu tudo, perdemos só o sofá, mas foi engraçado ver até meu pai puxando lama pra fora. Foi a farra do rodo. Todo ano acontecia, o nível da água cada vez mais subia conforme Camburi crescia.
Também cresci. Fui fazer faculdade em Florianópolis, latitude 27°S em Santa Catarina. Fui morar na praia e aprendi a gostar de vento e chuva! Aprendi também o que é mangue, restinga, floresta ombrófila densa. Vi como é simples tratar esgoto, monitorei poluição de gasolina em lençol freático. Fiz amigos urbanistas que, no papel, otimizavam espaço e sugeriam materiais reciclados muito baratos para construção de casas populares. Aprendi que no mundo de tecnologias existe solução para quase tudo. Mas continuava sem entender porque aquela cidade poluía seu principal ponto turístico, a Lagoa da Conceição, e a ocupação de suas encostas crescia para locais improváveis. A condição de vida na Ilha da Magia começava a me lembrar minha cidade natal, ou Guarapari, ou Rio de Janeiro.
Passei a frequentar audiências públicas para discussão destas questões. Via de um lado o governo respaldado de palavreado técnico e do outro, pessoas indignadas, reagindo com argumentos individuais àquela agressão coletiva. Violência mútua. E eu pensava: Por que brigam tanto se a solução só poderá ser o que é melhor para todos? Seria possível que se chegasse a um consenso? Qual é a origem do problema que estamos discutindo? Quais são as alternativas, suas vantagens e problemas? O que diz a lei sobre isto? Nada disso era respondido. Queria saber onde estavam aqueles autores que diziam o que era certo e errado naquele momento. Em suas páginas parecia tão fácil escolher e aplicar aquelas tecnologias.
Encontrei um mundo em que os interesses políticos e econômicos prevalecem ao bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida como diz o artigo 225 da constituição federal. Junto com isso a incapacidade de dialogar e uma gestão setorizada voltada para o problema imediato, em que não se olha para a causa das causas.
Faz tempo que lemos Consequências da Modernidade de Anthony Giddens (1990), mas na corrida da globalização construímos um país tropical urbano com problemas sociais e ambientais incoerentes ao avanço econômico. O discurso de o Ponto de Mutação de Fritjof Capra (1983) também já está batido, mas a importância dada a hiperespecialização alimenta a fragmentação do mundo onde somos mais robôs do que cidadãos. Segue nas próximas páginas uma tentativa em sentido contrario.

Boa Aline!
Vai mandando prá gente (ou por e-mail, mais garantido) as continuações do texto, que vamos gostar! Particularmente, me interessei pelas respostas às perguntas sobre a produção dos consensos. To mexendo na minha tese e vai ser beem legal acompanhar esse diálogo!
Beijo
Dani
Por: ecosana em dezembro 29, 2011
às 12:12 pm
Estou imersa na redação Dani. Vou adorar participar de um sarau filosófico em floripa pra conversarmos sobre tudo isso!
Por: Aline Matulja em dezembro 29, 2011
às 2:22 pm
Aline,
belo texto.
veja no segundo parágrafo, o pinheiros do rio deve se com maiusculas;
no terceiro, é sorvete e não soverte;
no quinto, tem um “tinha” a mais depois de ‘cidade’.
mande mais…..
abração.
d.
Por: daniel da silva em dezembro 29, 2011
às 12:39 pm
que saudade dessas correções!
Por: Aline Matulja em dezembro 29, 2011
às 2:21 pm
Perfeito. Fiquei emocionado, de verdade. Você não sabe a tremenda admiração que sinto por ti, como pessoa e como profissional. Um exemplo a ser seguido.
Adorei o texto e gostaria de republicá-lo em meu blog caso permita.
Sobre seu mestrado estou doido para ler, como li seu TCC na íntegra
Um forte abraço!
Por: Álvaro Diogo em dezembro 29, 2011
às 5:30 pm
Claro que pode Álvaro! Escrevi esse texto sem fazer ideia do quanto de mim estava nele. Foi libertador e fico muuuuito feliz se ele fizer outras pessoas refletirem como cresceram, que escolhas fizeram e como isso faz parte da história da nossa geração. Admiração mútua, querido! obrigada!
Por: Aline Matulja em dezembro 29, 2011
às 6:28 pm
Parabéns por sua iniciativa e pela correção do seu texto! Beijos. Viviane
)
Por: Viviane em janeiro 10, 2012
às 2:54 am
Oi florrr, muito bom mesmo… gosto tanto de ler seus textos, com certeza muito de você, um você que muita gente desconhecia! Continuarei acompanhando, com saudades imensas sempre!!!
Super beijos,
Thaizinha
Por: Thai em janeiro 10, 2012
às 3:29 am
Thaizinha! Acho que nem eu mesma sabia dessas coisas….escrever desperta tanto! que bom poder contar com você por aqui! tamojunto!
Por: Aline Matulja em janeiro 10, 2012
às 4:02 pm
Ah, que delícia de leitura!
Assim me sinto mesmo mais pertinho de você, mas dá uma saudaaade…
Parabéns Pretinha por ter ido buscar uma compreensão pra esses questionamentos de criança (quase dá para ver seus olhinhos de jabuticaba se perguntando o porquê de tantas esquisitices!) e a gente ganhou uma colega de classe de sua grandeza!
Keep on moving…
Beijo grande! e boa sorte nos finalmentes…
PS: antes de superespecialização não deveria ter um “a”?
Por: Stefânia em janeiro 12, 2012
às 7:20 pm
Mas eu tenho leitores de allllto nível mesmo!
esse textinho dá liga no textão que vem a seguir….ele é singelo, simplinho mas veio do coração!
obrigada pela companhia remota Tefinha!
mil beijos!
Por: Aline Matulja em janeiro 12, 2012
às 11:17 pm
Estou curiosa para ver o material todo, com este incrível começo, vai ser difícil esperar….rs…
Grande satisfação de trabalhar com você! Este engajamento e dedicação faz toda a diferença! Se prepara que este ano, vamos trabalhar muuuito e fazer a diferença, sempre!!
beijos
Por: Patricia Mistura em janeiro 23, 2012
às 12:26 am
espera que vai valer a pena Pati! Tomara…rsrsr!!! é um prazer imenso ver a transformação que acreditamos em prática lá em Paranaguá. O mundo precisa muito de empresas que tenham sustentabilidade e o compromisso social intrínsecos à missão. obrigada pela parceria de sempre! bjão!
Por: Aline Matulja em janeiro 24, 2012
às 1:04 am